quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Tela Dialética apresenta: A Revolução dos Bichos


 Escrito por: Renato Coelho 

A  famosa fábula de George Orwell, A Revolução dos Bichos, se transforma em um filme de longa metragem e vai parar nas telas do cinema. O filme (2026), dirigido por Andy Serkis, foi inspirado no livro de George Orwell, e narra a fascinante história de uma grande revolução organizada por animais de uma fazenda, que eram super explorados por fazendeiros humanos. O filme, assim como o livro homônimo, mostra as relações de poder entre os trabalhadores (animais da fazenda) e os patrões (fazendeiros humanos), permeadas pela escravidão, mercantilização e o aviltamento dos animais da fazenda. Porém, os próprios animais, diante da gigantesca e massacrante exploração de suas vidas, organizam um movimento social para a libertação da escravidão do trabalho na fazenda. A luta auto organizada e contra os fazendeiros humanos alcança êxito e a vitória é consumada após a expulsão completa dos donos da fazenda. A fazenda passa a ser administrada pelos próprios animais outrora explorados. As novas formas de trabalho na fazenda são igualitárias, sem hierarquias e auto-organizadas. Entretanto, com o passar do tempo, os porcos se auto proclamam líderes daquela revolução popular dos bichos e criam leis favoráveis a si mesmos, mudando as regras e os princípios igualitários daquele movimento revolucionário original. Os porcos passam a ter regalias e privilégios que nenhum outro animal da fazenda possuía, moram na sede da fazenda, usam equipamentos e utensílios dos antigos fazendeiros humanos e passam a explorar os demais animais da fazenda, comercializando toda a produção com os seres humanos da cidade. Os porcos acabam violando todas as regras daquele movimento social, e que agora, já não pode ser mais denominado de auto organizado. Os porcos se tornam os novos fazendeiros, não diferindo em nada daqueles primeiros fazendeiros expulsos após a revolução dos bichos. O livro de George Orwell é na verdade uma crítica à Revolução Russa de 1917, que inicialmente é organizada de forma legítima pelo movimento popular de trabalhadores russos (soviets), promovendo de fato a criação de uma sociedade autogerida, socialista e igualitária. Mas que, logo depois, em pouco tempo após a revolução, a criação de privilégios, regalias e novas regras por parte de uma pequena elite russa (composta pelo partido e por grupos civis e militares), que passa a legislar em benefício próprio, consegue propositalmente desvirtuar e descaracterizar por completo os princípios populares e revolucionários do movimento, levando posteriormente a criação de um  "novo" regime na forma de capitalismo estatal (a antiga URSS), onde os trabalhadores ("os bichos") voltam a ser objeto da exploração laboral, promovida pelo recém criado Estado ("os porcos"), tal qual anteriormente, sob a antiga forma de exploração nos tempos da monarquia absolutista dos czares russos ("os antigos fazendeiros"). Os porcos assumem o poder, e tudo volta a ser como era antes. Os porcos se tornaram bípedes!

terça-feira, 21 de abril de 2026

Louis Theroux: por dentro da machosfera



 (Escrito por: Renato Coelho)

Este documentário, dirigido por Louis Theroux, procura descortinar os conceitos e princípios que regem a chamada machosfera. A machosfera é um movimento misógino, formado exclusivamente por homens, e que surgiu a partir de grupos na internet. Além de ensinarem como seduzir e conquistar mulheres, pregam também o ódio às mulheres, a cultura do estupro, o machismo, a relativização do assédio sexual e da importunação sexual, e divulgam também ideias anti-feministas. O grande foco da machosfera é a monetização através da prática da misoginia nas redes sociais. Nos videos, chats e redes sociais vinculadas à machosfera existe uma tentativa clara em naturalizar o machismo, o patriarcalismo e a submissão das mulheres aos caprichos e às regras masculinas, no intuito de oprimir e subjulgar as mulheres. Os coachs, palestrantes e membros da machosfera, na maioria homens narcisistas e machistas, que além de ganharem muito dinheiro com a venda de livros, videos, aulas e palestras, tentam promover ataques aos movimentos feministas e aos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas. E para fazer valer essa ofensiva, utilizam principalmente da misoginia, incentivando a violência contra as mulheres. Os seus relacionamentos com suas namoradas ou esposas são totalmente tóxicos, onde somente a mulher deve aderir à monogamia ("monogamia unilateral"), devendo ser fiel ao seu namorado ou esposo, enquanto o seu parceiro, membro da machosfera, é autorizado a ter quantas parceiras quiser.
Só no Brasil, no ano de 2025 morreram 1568 mulheres por feminicídio, ou seja, foram mortas por sua condição de gênero, um número recorde e que revela um aumento de quase 5% em relação ao ano anterior, uma média de mortes em cerca de 4 mulheres por dia no Brasil. Essa estatística assutadora é fruto do machismo estrutural, do patriarcalismo, da impunidade e das práticas de misoginia na sociedade brasileira, onde a mulher é vista apenas como objeto e como tendo a sua posse delegada aos homens. No mercado de trabalho, as questões de gênero comprovam o preconceito e a discriminação brutal contra o direito das mulheres, que apesar de terem em média, maior escolaridade, possuem os menores salários, ocupam cargos subalternos e ainda tem maior carga horária semanal de trabalho quando comparada aos homens.
A machosfera tem promovido artistas, coachs e influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais, e cujo público é formado principalmente por crianças escolares, adolescentes e jovens. Os influenciadores da machosfera tentam justificar o fracasso dos homens às conquistas recentes e à luta das mulheres, desconsiderando o contexto de uma sociedade de classes e às políticas neoliberais em vigor, que geram a pobreza, a precarização do trabalho e a precarização da vida, tanto para homens, quanto para mulheres. Para os frequentadores da machosfera, a culpa de todas as mazelas que atualmente sobrevém aos homens, é das mulheres. Para eles a mulher é apenas um objeto sexual e cuidadora das questões domésticas, como criar filhos e limpar a casa. Ainda utilizam de uma pseudociência que tenta explicar a superioridade masculina com base em falsas interpretações das ideias de Charles Darwin. Além da misoginia, a machosfera também promove a homofobia, gordofobia, o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa.
A internet é um construto social, que não apenas reflete os valores e os preconceitos sociais, mas que é capaz de potencializar tais valores e ideias, devido à sua grande abrangência, velocidade de alcance e de sua propagação em escala global. A misoginia difundida nas redes da machosfera, além de ser uma ação criminosa, tem atacado os direitos, a dignidade, os valores e a vida das mulheres, promovendo  a chamada cultura do estupro, o machismo entre os jovens, a violência, o feminicídio, a desumanização de mulheres e também de homens. Essa subcultura misógina e machista precisa ser não apenas reprovada, mas também combatida, não somente pelas mulheres, mas por toda a sociedade, inclusive pelos homens, através de uma luta de todos e por todos, para por fim a esse movimento de ódio às mulheres e promover a justiça social e a equidade de gênero.