terça-feira, 27 de outubro de 2026

O Salário do Medo - dia 06/11/26 (sexta-feira) na sala 11 & 09/11/26 (segunda-feira) às 7h sala 07 - UEG ESEFFEGO

 


(Escrito por: Renato Coelho)


Filme de ação e suspense dirigido por Julien Leclrerq em 2024, é uma adaptação do filme de Henri-Georges Clouzot de 1953, baseado no livro de romance homônimo de Georges Arnaud. A obra é uma metáfora da condição de proletariedade do trabalhador da modernidade do capital. Em uma cidade pobre (Tonwship), situada no meio do deserto de um país Árabe, (no filme original e no livro, a cidade está localizada na Guatemala, que fica na América Central), uma empresa multinacional estadunidense de petróleo explora os trabalhadores de forma brutal. A espoliação da força de trabalho, a despreocupação com a proteção ambiental e com segurança dos moradores do vilarejo é literalmente exposta,  quando em uma das refinarias ocorre um mega incêndio, colocando em risco não somente os trabalhadores da refinaria de petróleo, mas também a vida de todos os moradores. A iminência de uma catástrofe gera o pânico e o desespero de toda a população, pois em questão de horas, tudo irá explodir devido ao incêndio em um dos poços principais de extração de petróleo. A empresa petrolífera encontra uma única solução para evitar a tragédia no pobre vilarejo: explodir todo o poço da refinaria que está em chamas com duzentos quilos de nitroglicerina, para assim, extinguir por completo o incêndio e evitar que ele se espalhe. Vários moradores da vila são contratados para essa perigosa e impossível missão: transportar em caminhões a perigosa e explosiva carga de nitroglicerina. Os riscos, medos e desafios acontecem justamente na estrada em que estes trabalhadores são obrigados a viajar para transportar a letal e explosiva carga. E o objetivo é levar essa carga até o poço em chamas, e em seguida lançá-la sobre o fogo para tentar debelar o incêndio sem controle.
O filme retrata a situação do trabalhador moderno, onde a condição de proletariedade e a precarização extrema, produzem o medo e a incerteza sobre a vida e sobre o futuro. No filme "O salário do medo", a precarização do trabalho espelha também a precarização da vida, a miséria social, a degradação do caráter e a perspectiva iminente da morte, frente a uma vida sem sentido e sem significado a que são submetidos os trabalhadores.
O imperialismo moderno é retratado no filme, através da empresa americana de petróleo, que expõe de forma cruel, o capitalismo globalizado e as suas desumanas relações de poder. O petróleo ("ouro negro") é extraído da natureza, para abastecer e manter em funcionamento a produção insaciável do capital. Além de produzir a energia vital para o sistema de produção de mercadorias, a petrolífera expõe as contradições imanentes da modernidade atual do capital. A miséria dos moradores do vilarejo contrasta com a opulência e riqueza dos gestores e donos da empresa de petróleo. O filme revela ainda, a destruição rapace da natureza e a poluição do planeta através da contínua extração e uso de combustíveis fósseis. A extração de petróleo coloca em risco toda a pobre população da vila, pois as jazidas de petróleo estão localizadas justamente no subsolo onde estão construídas as casas dos trabalhadores. O incêndio catastrófico ameaça colocar pelos ares,  todos os seus moradores. A situação exige uma solução incerta e não menos arriscada, ou seja, lançar toda a nitroglicerina transportada,  no poço de petróleo que arde continuamente em chamas. E para essa missão arriscada e impossível são convocados imigrantes e trabalhadores locais, cujas vidas não possuem nenhum valor para a grande empresa multinacional do petróleo. 
O medo dos personagens do filme em dirigir caminhões carregados de nitroglicerina por estradas perigosas, esburacadas e traiçoeiras, representa o medo estrutural de todos os trabalhadores inseridos no mundo do trabalho capitalista, onde impera o desemprego, a alta periculosidade, a precarização, os baixos salários, o adoecimento continuo e a fetichização das relações sociais.
A sociedade capitalista é a sociedade do risco e do medo, não somente o risco do trabalho em si, mas também o risco instalado no próprio cotidiano, o risco do não acesso ao sistema de saúde pelo trabalhador, o risco dos agrotóxicos nos alimentos, o risco da proliferação de vírus e bactérias potencializados pela poluição do planeta, o risco da violência dos centros urbanos, o risco dos eventos climáticos extremos, que são consequências da degradação ambiental, dos desmatamentos e das emissões de gases do efeito estufa na atmosfera. A modernidade do capital, revelada através do filme, mostra que a atividade laboral realizada pelo sujeito que trabalha, passa a ser atividade de alto risco, e o pagamento pelo seu trabalho, ou seja, o seu salário, passa a ser o medo existencial.




quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Tela Dialética apresenta: A Revolução dos Bichos


 Escrito por: Renato Coelho 

A  famosa fábula de George Orwell, A Revolução dos Bichos, se transforma em um filme de longa metragem e vai parar nas telas do cinema. O filme (2026), dirigido por Andy Serkis, foi inspirado no livro de George Orwell, e narra a fascinante história de uma grande revolução organizada por animais de uma fazenda, que eram super explorados por fazendeiros humanos. O filme, assim como o livro homônimo, mostra as relações de poder entre os trabalhadores (animais da fazenda) e os patrões (fazendeiros humanos), permeadas pela escravidão, mercantilização e o aviltamento dos animais da fazenda. Porém, os próprios animais, diante da gigantesca e massacrante exploração de suas vidas, organizam um movimento social para a libertação da escravidão do trabalho na fazenda. A luta auto organizada e contra os fazendeiros humanos alcança êxito e a vitória é consumada após a expulsão completa dos donos da fazenda. A fazenda passa a ser administrada pelos próprios animais outrora explorados. As novas formas de trabalho na fazenda são igualitárias, sem hierarquias e auto-organizadas. Entretanto, com o passar do tempo, os porcos se auto proclamam líderes daquela revolução popular dos bichos e criam leis favoráveis a si mesmos, mudando as regras e os princípios igualitários daquele movimento revolucionário original. Os porcos passam a ter regalias e privilégios que nenhum outro animal da fazenda possuía, moram na sede da fazenda, usam equipamentos e utensílios dos antigos fazendeiros humanos e passam a explorar os demais animais da fazenda, comercializando toda a produção com os seres humanos da cidade. Os porcos acabam violando todas as regras daquele movimento social, e que agora, já não pode ser mais denominado de auto organizado. Os porcos se tornam os novos fazendeiros, não diferindo em nada daqueles primeiros fazendeiros expulsos após a revolução dos bichos. O livro de George Orwell é na verdade uma crítica à Revolução Russa de 1917, que inicialmente é organizada de forma legítima pelo movimento popular de trabalhadores russos (soviets), promovendo de fato a criação de uma sociedade autogerida, socialista e igualitária. Mas que, logo depois, em pouco tempo após a revolução, a criação de privilégios, regalias e novas regras por parte de uma pequena elite russa (composta pelo partido e por grupos civis e militares), que passa a legislar em benefício próprio, consegue propositalmente desvirtuar e descaracterizar por completo os princípios populares e revolucionários do movimento, levando posteriormente a criação de um  "novo" regime na forma de capitalismo estatal (a antiga URSS), onde os trabalhadores ("os bichos") voltam a ser objeto da exploração laboral, promovida pelo recém criado Estado ("os porcos"), tal qual anteriormente, sob a antiga forma de exploração nos tempos da monarquia absolutista dos czares russos ("os antigos fazendeiros"). Os porcos assumem o poder, e tudo volta a ser como era antes. Os porcos se tornaram bípedes!

terça-feira, 21 de abril de 2026

Louis Theroux: por dentro da machosfera



 (Escrito por: Renato Coelho)

Este documentário, dirigido por Louis Theroux, procura descortinar os conceitos e princípios que regem a chamada machosfera. A machosfera é um movimento misógino, formado exclusivamente por homens, e que surgiu a partir de grupos na internet. Além de ensinarem como seduzir e conquistar mulheres, pregam também o ódio às mulheres, a cultura do estupro, o machismo, a relativização do assédio sexual e da importunação sexual, e divulgam também ideias anti-feministas. O grande foco da machosfera é a monetização através da prática da misoginia nas redes sociais. Nos videos, chats e redes sociais vinculadas à machosfera existe uma tentativa clara em naturalizar o machismo, o patriarcalismo e a submissão das mulheres aos caprichos e às regras masculinas, no intuito de oprimir e subjulgar as mulheres. Os coachs, palestrantes e membros da machosfera, na maioria homens narcisistas e machistas, que além de ganharem muito dinheiro com a venda de livros, videos, aulas e palestras, tentam promover ataques aos movimentos feministas e aos direitos conquistados pelas mulheres nas últimas décadas. E para fazer valer essa ofensiva, utilizam principalmente da misoginia, incentivando a violência contra as mulheres. Os seus relacionamentos com suas namoradas ou esposas são totalmente tóxicos, onde somente a mulher deve aderir à monogamia ("monogamia unilateral"), devendo ser fiel ao seu namorado ou esposo, enquanto o seu parceiro, membro da machosfera, é autorizado a ter quantas parceiras quiser.
Só no Brasil, no ano de 2025 morreram 1568 mulheres por feminicídio, ou seja, foram mortas por sua condição de gênero, um número recorde e que revela um aumento de quase 5% em relação ao ano anterior, uma média de mortes em cerca de 4 mulheres por dia no Brasil. Essa estatística assutadora é fruto do machismo estrutural, do patriarcalismo, da impunidade e das práticas de misoginia na sociedade brasileira, onde a mulher é vista apenas como objeto e como tendo a sua posse delegada aos homens. No mercado de trabalho, as questões de gênero comprovam o preconceito e a discriminação brutal contra o direito das mulheres, que apesar de terem em média, maior escolaridade, possuem os menores salários, ocupam cargos subalternos e ainda tem maior carga horária semanal de trabalho quando comparada aos homens.
A machosfera tem promovido artistas, coachs e influenciadores com milhões de seguidores nas redes sociais, e cujo público é formado principalmente por crianças escolares, adolescentes e jovens. Os influenciadores da machosfera tentam justificar o fracasso dos homens às conquistas recentes e à luta das mulheres, desconsiderando o contexto de uma sociedade de classes e às políticas neoliberais em vigor, que geram a pobreza, a precarização do trabalho e a precarização da vida, tanto para homens, quanto para mulheres. Para os frequentadores da machosfera, a culpa de todas as mazelas que atualmente sobrevém aos homens, é das mulheres. Para eles a mulher é apenas um objeto sexual e cuidadora das questões domésticas, como criar filhos e limpar a casa. Ainda utilizam de uma pseudociência que tenta explicar a superioridade masculina com base em falsas interpretações das ideias de Charles Darwin. Além da misoginia, a machosfera também promove a homofobia, gordofobia, o racismo, a xenofobia e a intolerância religiosa.
A internet é um construto social, que não apenas reflete os valores e os preconceitos sociais, mas que é capaz de potencializar tais valores e ideias, devido à sua grande abrangência, velocidade de alcance e de sua propagação em escala global. A misoginia difundida nas redes da machosfera, além de ser uma ação criminosa, tem atacado os direitos, a dignidade, os valores e a vida das mulheres, promovendo  a chamada cultura do estupro, o machismo entre os jovens, a violência, o feminicídio, a desumanização de mulheres e também de homens. Essa subcultura misógina e machista precisa ser não apenas reprovada, mas também combatida, não somente pelas mulheres, mas por toda a sociedade, inclusive pelos homens, através de uma luta de todos e por todos, para por fim a esse movimento de ódio às mulheres e promover a justiça social e a equidade de gênero.





sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Filme: "Até a Última Gota" - UEG ESEFFEGO




 (Escrito por: Renato Coelho)


O filme "Até a Última Gota" (EUA - 2025), dirigido por Tyler Perry, narra a história de Janiyah, uma mulher negra, mãe solteira e que trabalha em dois empregos, sendo um deles como atendente de caixa em um supermercado. Exercendo um trabalho precarizado, com baixo salário, morando em um local insalubre e sem dinheiro para pagar o aluguel. Janiyah mantém uma luta incessante para cuidar e educar Ária, sua filha doente de 8 anos de idade, cujos medicamentos de uso contínuo são bastante caros para o seu orçamento.

O filme, além de mostrar o racismo estrutural na sociedade norte americana, mostra os preconceitos de gênero e os estigmas enfrentados por uma mãe solteira, desempregada e ao ser despejada de casa, se torna também uma mulher sem teto. Revela ainda o descaso, a falta de diálogo, a violência e a desumanização das instituições sociais (escola, hospital, polícia, conselho tutelar, imprensa e governo) no trato com as crianças e seus familiares. E acima de tudo, o filme revela que a precarização e a intensificação do trabalho levam irremediavelmente à precarização da vida do trabalhador, a precarização dos relacionamentos sociais, ao colapso familiar e ao próprio  adoecimento do trabalhador. No caso de Janiyah, ela é acometida por um surto psicótico somado a delírios psicológicos.

Vivendo literalmente um "dia de cão", Janiyah perde o emprego, é despejada de sua casa e assiste sua filha ser levada pelo conselho tutelar da cidade para um abrigo de menores, sob a alegação de maus tratos da mãe. Para completar o "inferno astral" instaurado na sua vida, ela é vítima de uma violenta e injusta blitz policial no trânsito, onde é ameaçada de morte pelo policial e ainda recebe uma multa, tendo o seu carro rebocado. Ao voltar ao supermercado onde trabalhava, a fim de receber o último salário, o patrão lhe nega o pagamento. Naquele mesmo instante, ela presencia um assalto a mão armada por bandidos que assaltam o supermercado. Neste momento ela se defende dos assaltantes, matando um deles. O patrão a responsabiliza injustamente pelo assalto, dizendo que ela havia planejado tudo e chama a polícia, condenando Janiyah por algo que ela não fizera. Ela então, devido à grande pressão e às inúmeras tragédias vivenciadas naquele dia,  tem um surto psicótico e mata o próprio patrão com a arma de um dos assaltantes. Em seguida ela vai até o banco e tenta descontar o cheque do seu salário. Porém, a atendente de caixa não autoriza o saque do salário, porque Janiyah não tinha em mãos a carteira de identidade. Então, dá-se início ao suposto "assalto a banco" de forma involuntária, sem intenção e sem planejamento, praticado por Janiyah.

Janiyah, uma mulher negra e mãe solteira, sofre com a precarização do trabalho, com o  desemprego, com o racismo estrutural, com a misoginia de uma sociedade machista e com a falta de assistência social do poder público. Ela é arrastada  para um nível altamente precário de vida, que a leva para muito além do limite do humanamente suportável, tendo como consequência grave o adoecimento total da sua mente. Uma grave crise psicótica capaz de fazê-la cometer ações e crimes inimagináveis à sua conduta e intangíveis para a sua pessoa. O filme demonstra que a barbárie capitalista e a veemente violência promovida pela sociedade de classes, são as maiores vilãs e as verdadeiras responsáveis pela desumanização do trabalhador e também as grandes causadoras da pandemia de doenças psicossomáticas que tanto afligem e destroem o corpo e a alma humana na atual modernidade do capital: depressão, surtos, ansiedade, estresse, síndrome de Burnout, psicoses, suicídios e etc. 



segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Filme: "A Mula" (2018) - 06/10/2025 Sala 08 ESEFFEGO UEG


(Escrito por: Renato Coelho)

O filme "A Mula" (2018) dirigido por Clint Eastwood conta a história de um idoso de 90 anos, que assiste de forma irresoluta, a súbita falência de sua pequena empresa de plantas ornamentais (lírios), devido principalmente à  concorrência desleal com a Internet. Ele acaba ficando sem emprego, sem dinheiron e sem a sua família,  na qual ele nunca dera valor algum. 
O personagem Earl, recebe uma proposta de trabalho como motorista. Porém, da noite para o dia, se vê cooptado pelo cartel do narcotráfico (Sinaloa), para transporte terrestre de drogas entre o Texas e Chicago.
O filme também mostra os conflitos entre o mundo do trabalho e os relacionamentos familiares. O personagem Ealr, ex-combatente de guerra,  floricultor falido e atualmente motorista do cartel de Sinaloa, sempre deixou a família em segundo plano, colocando sempre o trabalho em primeiro lugar. A idolatria pelo trabalho provoca o colapso da família de Earl, o divórcio com a esposa, a inimizade com a filha e os atritos com a neta. 
O inesperado câncer da ex-esposa e a sua morte rápida, faz Earl enxergar a si mesmo e as suas escolhas erradas feitas durante a vida. Earl descobre o valor e a importância da família somente aos 90 anos, após a morte da esposa e a sua prisão por tráfico de drogas. Aos 90 anos descobre que a família é o bem mais importante da vida, e em suas falas, diz que o trabalho não pode vir em primeiro lugar. Ao contrário de tudo o que sempre fez, relata que a família deve estar em primeiro lugar e não o trabalho, revelando a todos que o mais importante na história de um homem, não consiste em suas atividades laborais, mas sim, os seus relacionamentos familiares. O personagem também faz no filme reflexões sobre o tempo, sua brevidade e a impossibilidade de comprar com dinheiro o tempo que fora perdido distante da família.